O Dia da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha

O grupo Associação de Mujeres Afro, formado por mulheres negras de 32 países da América Latina e do Caribe decidiu que era preciso se organizar de alguma forma denunciar opressões e debater soluções na luta contra o racismo e o sexismo e que a solução só poderia surgir da própria união entre mulheres negras.
 
Nesse contexto, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha foi definido no 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, em 1992, em Santo Domingo, na República Dominicana. No Brasil, em 2014, a ex-presidenta Dilma Rousseff (PT) sancionou a lei nº 12.987 estabelecendo a data de 25 de julho como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra – símbolo de resistência e importantíssima liderança na luta contra a escravização.
 
A mulher negra é, ainda hoje, a principal vítima de feminicídio, das violências doméstica e obstétrica e da mortalidade materna; além de estar na base da pirâmide socioeconômica do país. Por isso, 25 de julho não é apenas uma data de celebração, é uma data em que as mulheres negras, indígenas e de comunidades tradicionais refletem e fortalecem as organizações voltadas às mulheres negras e suas diversas lutas. 
Por Noemy TomasO feminismo negro tem seu início no Brasil na década de 80, época na qual ocorre o surgimento do MNU (Movimento Negro Unificado), no dia 07 de julho de 1978. Um movimento social que inicialmente não abarcava todas as necessidades das mulheres negras. Como aponta Rosane da Silva Borges na sua obra “Sueli Carneiro”, Lélia Gonzalez puxou as pontas ocultas do racismo e do sexismo e edificou, assim, um campo de atuação em que é possível especificar essas abordagens sem segregá-las.

As  questões do MNU conduzidas inicialmente pelos homens, e o Movimento de Mulheres conduzido pelas mulheres brancas, deixaram à mulher negra o sentimento e a ação do não lugar. Ao mesmo tempo em que o fator racial as ligava ao Movimento Negro Unificado, não eram contempladas pelo gênero, e na outra ponta, enquanto mulheres o movimento feminista era o seu lugar, mas era só adentrar neste campo que as questões raciais já não eram discutidas. Esse espaço do não lugar leva a mulher negra ao apagamento de sua identidade, de seus feitos, como há anos são submetidas a desumanização que vai desde as produções intelectuais, dos saberes populares, à própria existência enquanto agente transformador na sociedade.

O feminismo negro surge da inquietação do não-lugar, da garra de mulheres pretas que sempre cunharam a sua história no coletivo, entender que esses  atravessamentos de opressões são indissociáveis é fundamental. Quando se diz que uma princesa, mulher negra, grávida, foi sequestrada em África e vendida como reprodutora, sendo estuprada para gerar novos corpos pretos para serem utilizados de acordo com os interesse dos escravocratas, essa é uma pequena parte da história de mulheres como Aqualtune, que vivenciaram na pele as crueldades por conta dos seus fenótipos e do seu gênero.

O Brasil é estruturado pelo  marcador racial, a exploração fundamenta-se na racialização dos corpos, o mecanismo para manutenção social inicia-se com o sistema racista. Nas entranhas da sociedade está a raça, por mais que a branquitude como um todo tente mascarar esse fato (e sabe-se que por vezes consegue) a realidade brasileira para a maioria da população, cerca de 54% das pessoas, não permite esse apagamento.

A raça é visível quando os dados sobre o encarceramento possuem cor, e a maioria são pessoas negras, quando os índices de feminicídio apontam cor, e a maioria são mulheres negras, quando os levantamentos indicam que a população negra é a mais afetada pelos projetos de favelização, sendo privada do acesso a condições básicas de manutenção da vida e colocada como alvo das ações violentas do Estado, fazendo com que a cada 23 minutos uma mulher negra chore a morte de seu filho, irmão, pai.

A justificativa desonesta de que isso é apenas é uma questão de lógica, uma vez que os negros são maioria, seria apenas válida se fossem também a maioria nos espaços de poder, se a maioria das pessoas que estivessem na gerência de grandes negócios, ou até mesmo na representação política, fossem pessoas negras. Mas não são, porque são vítimas do resquício de anos de escravidão e da manutenção do projeto da branquitude, o racismo. E em relação às mulheres, o Mapa da Violência de 2015 situa a problemática de construir políticas públicas sem levar em consideração o fator raça, uma vez que os números de feminicídio de mulheres brancas diminuíram, o que é de fato uma vitória, porém ocorreu um aumento significativo das mortes de mulheres negras.

Para além das inquietações já expostas, a diferenciação do feminismo hegemônico se dá por críticas apresentadas, por exemplo, à posição reivindicada por mulheres brancas na sociedade quando, no início do movimento de mulheres, ao protestarem pelo direito de trabalhar, desconsideravam a existência de mulheres negras forçadas ao trabalho há gerações. Apesar de essas mulheres estarem supostamente inseridas em um mercado de trabalho, eram relegadas aos trabalhos de base e, principalmente na época, aos empregos nos lares de famílias brancas. Esses apontamentos são situações que ocorrem e por vezes não são discutidas por mulheres brancas, beirando a desonestidade e colaboração para as dores das mulheres negras.

Dentro do feminismo negro também existem divergências e peculiaridades para serem pautadas. Tanto no espectro gênero, orientação sexual e classe,  seja mulher cisgênero, transexual, hétero, lésbica, pobre ou rica, todas as mulheres negras são perpassadas pelo racismo que estereotipa seus corpos, que as coloca enquanto sujeitas subservientes, que as inferioriza e silencia, sendo atravessadas por vivências individuais que entrelaçam uma dor coletiva, a solidão se faz presente, seja no campo amoroso, ou nas relações pessoais, como na amizade.

Falar sobre feminismo negro no Brasil, é evocar personalidades negras femininas tais como Lélia Gonzalez, Luiza Barros, Sueli Carneiro e tantas outras que são importantes agentes na construção da emancipação do povo preto, seja em tempos do sistema escravocrata (viva Zacimba Gaba, Zeferina, Dandara, Maria Felipa!) ou no pós abolição (viva Maria Firmina dos Reis, Laudelina de Campos!). Até mesmo nos dias em que vivemos, mulheres negras seguem sendo lideranças dos movimentos pela libertação do povo negro.Noemy Tomas é graduanda em Ciências Sociais pela PUCC, integrante do Coletivo Negro Ruth de Souza e escritora sobre personalidades negras femininas no imprensa preta.
Instagram: @noemy_tomas
Tereza de Benguela, presente!

Tereza de Benguela, ou Rainha Tereza, ficou conhecida como uma das grandes heroínas negras que marcaram a história do Brasil. Ela viveu durante o século XVIII e esteve à frente do Quilombo do Piolho ou Quilombo do Quariterê, localizado no Mato do Grosso do Sul. 

Tereza foi uma grande líder, seu quilombo resistiu à escravidão por duas décadas e abrigava em torno de 100 pessoas, entre indígenas e quilombolas. Como outros quilombos, aquele que ela chefiava se localizava em uma região de difícil acesso, no Pantanal. 
 
Tereza foi responsável por comandar política, econômica e administrativamente o Quilombo do Piolho. Implementou um sistema de parlamento no quilombo que decidia coletivamente todas as estratégias tomadas para a defesa do território e o cultivo de alimentos necessários a sua subsistência. 
 
Embora a Rainha Tereza não apareça nos livros de história brasileiros, ela jamais foi esquecida pela população negra. Seu nome tem sido chamado nas rodas de capoeira e nos enredos de sambas Brasil afora, como destaque, o samba-enredo da escola Viradouro em 1994 homenageando Tereza de Benguela: 
 
“(…)A saga de Tereza de Benguela
Uma rainha africana
Escravizada em Vila Bela
O Ciclo do Ouro iniciava
No cativeiro, sofrimento e agonia
A rebeldia, acendeu a chama da liberdade
No quilombo o sonho de felicidade
Ilê ayê, ara ayê, ilú ayê
Um grito forte ecoou
A esperança, no Quariterê
O negro abraçou
No seio de Mato Grosso a festança começava
Com o parlamento, a rainha negra governava
Índios, caboclos e mestiços, numa civilização
O sangue latino vem na miscigenação(…)”

 
Com o engajamento e luta dos movimentos de mulheres negras, e a dedicação à pesquisa e à memória de Tereza, temos caminhado no sentido de recontar a história nacional e disseminar outras narrativas que mostram a formação sociopolítica brasileira. 
 
Como marco dessa luta, em 2014, foi declarado (Lei 12.987/2014) o dia 25 de julho em homenagem à Tereza de Benguela e às mulheres negras, dia este que também é celebrado internacionalmente como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. 
 
No Brasil, a data tem mobilizado vários eventos e festividades que mesclam arte e política, são um momento de celebração, mas também de afirmação das mulheres negras na história e no presente do Brasil. Alguns eventos em destaque são o Festival Latinidades, de alcance nacional, e realizado pelo Instituto Afrolatinas. E o Festival PretaCei, organizado por coletivos da periferia do Distrito Federal, em Ceilândia.
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