De 1997 a 2019 (23 anos) Piúma arrecadou o equivalente a quase um bilhão de reais…

… Cadê o dinheiro que estava aqui?

Nelson Morghetti: Advogado, Bacharel em Filosofia, Pós graduado em Educação em Direitos Humanos

Nunca foi tão importante refletir em quem votar como no pleito eleitoral deste ano, tendo em vista sua atipicidade em razão da pandemia, que, a partir do próximo ano, irá impor tempos ainda mais difíceis quando comparado com aquele que enfrentamos, a exemplo da queda de receitas já anunciada pelos governos Estadual e Federal.

Chamo a atenção de cada eleitor sobre publicação da Rede CNN de jornalismo, datada de 30/07/2020[1], que reproduziu divulgação feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE) destacando que mais de 50% (cinquenta por cento) da população brasileira com idade para trabalhar está fora do mercado de trabalho (desempregada) devido a pandemia (87,6 milhões de pessoas), sendo a primeira vez na história da série de pesquisa que se chega a um patamar tão elevado de desemprego.

Mas alguém poderia perguntar o que isso tem a ver com Piúma? Tem tudo a ver, e basta olhar para a maratona que os piumenses estão enfrentando, desde o mais simples e digno trabalhador ao mais bem-sucedido empresário, refletindo um cenário de incertezas, traduzido pelo desemprego e sofrimento de milhares de pessoas em nosso município que já não sabem mais a quem recorrer. É só dar uma volta pela cidade e observar as portas de comércios fechadas e tantas outras na eminência de seguirem o mesmo caminho.

Além desse triste cenário imposto pelo COVID-19, somos impelidos a refletir nas eleições deste ano. Se elegermos ou reelegermos pessoas com o perfil inapropriado de gestor e sem a qualificação técnica necessária, então de certo a dificuldade deverá ser enfrentada de forma ampla, vez que toda sociedade será atingida.

O triste cenário imposto para a população no período de 1997 a 2019 é fruto de gestões que não tiveram condições de produzir políticas públicas voltadas para o desenvolvimento sustentável, vendendo a ideia de que somos município que não possui recursos, mas basta uma simples pesquisa para observar que essa realidade que nos foi apresentada de fato não existe e que existiu foi um verdadeiro descompromisso na forma de gastar os recursos públicos.

De fato, segundo consulta feita na Revista Finanças Capixabas[2] cuja base de dados é colhida junto ao Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo, Piúma, nesses 23 anos – 1997 a 2019 – arrecadou quase um bilhão de reais, ou seja, R$ 892.313.692,47 (oitocentos e noventa e dois milhões, trezentos e treze mil, seiscentos e noventa e dois reais e quarenta e sete centavos).

Dividindo esse valor pelo número de anos dos últimos três prefeitos teremos a seguinte média de gastos: um governou por 12 anos – (1997 a 2004 e 2013 a 2016), gastando quase MEIO BILHÃO de reais – R$ 486.716.559,00 (quatrocentos e oitenta e seis milhões, setecentos e dezesseis mil, quinhentos e cinquenta e nove reais); outro, com apenas meio mandato (governou nos anos de 2005 e 2006), gastou o equivalente a R$ 81.119.426,40 (oitenta e um milhões, cento e dezenove mil, quatrocentos e vinte e seis reais e quarenta centavos); e o terceiro, que governou por 9 anos (1997 a 2012 e 2017 a 2019), gastou o equivalente a R$ 365.037.419,00 (trezentos e sessenta e cinco milhões, trinta e sete mil, quatrocentos e dezenove reais), destacando que os números indicam que existiram anos que o prefeito gastou mais do que arrecadou.

Em royalties de petróleo nesses 23 anos, Piúma arrecadou R$ 169.517.990,13  (cento e sessenta e nove milhões, quinhentos e dezessete mil, novecentos e noventa reais e treze centavos), ou seja, dividindo pelos gestores desse período, um prefeito gastou R$ 88.444.168,70 (oitenta e oito milhões, quatrocentos e quarenta e quatro mil, cento e sessenta e oito reais e setenta centavos); o segundo o equivalente a R$ 14.740.694,80 (quatorze milhões, setecentos e quarenta mil, seiscentos e noventa e quatro reais e oitenta centavos) e o terceiro o equivalente a R$ 66.333.126,50 (sessenta e seis milhões, trezentos e trinta e três mil, cento e vinte e seis reais e cinquenta centavos.

Esses números podem, de certo, variar de acordo com a arrecadação do período, mas o que deve ser levado em conta é que juntos, os três são responsáveis pelo gasto de quase um bilhão de reais em um município que é o menor em faixa territorial do nosso Estado, sendo que 96% da população reside em área urbana e apenas 4% em área rural que, de igual forma, também está abandonada.

Um bom exemplo da ingerência administrativa é o que recentemente Piúma pode ver em relação ao valor para urbanizar sua orla. No projeto emergencial que ainda está se buscando realizar, o valor orçado ficou em pouco mais de três milhões e meio de reais. Se fôssemos urbanizar toda a orla central, com calçadão, banheiros, ciclovia, humanizando aquela área, o valor chegaria próximo a trinta milhões de reais, como já apresentado pelo Estado.

A conta é fácil. Dos quase 200 milhões de royalties de petróleo arrecadados no período de 1997 a 2019, que nesse período só poderiam ter sido utilizados em infraestrutura, seria possível deixar totalmente urbanizada não só as três orlas (Portinho, central e Maria Neném), mas também melhorar em muito a estrutura de nossa cidade, com iluminação pública de qualidade, limpeza urbana com equipamentos eficientes, mobilidade urbana bem planejada, vídeo-monitoramento para melhorar a segurança pública. Contudo, nada foi feito: as orlas estão abandonadas, a iluminação é péssima, a mobilidade urbana é ineficiente e já ceifou inúmeras vidas, a insegurança é patente, a coleta de lixo que além de ineficiente possui valor altíssimo e questionável…

Aliás, sobre a coleta de lixo, que vem alcançando destaque negativo na mídia desta região pelos investigados esquemas de corrupção e desvios de dinheiro público, poderia se tornar em solução em vez de problema. Nessa ótica, destaco o município de Londrina, no Paraná, onde a secretaria responsável apresentou um empreendimento que custa menos de dois milhões de reais para ser implantado, mas o resultado permite, com o lixo produzido na cidade, a fabricação de tijolos, telhas, vigas, compensados de madeira, piso, mármore e até asfalto, barateando a construção de casas populares, manutenção de vias públicas, reformas em prédios públicos, dentre tantas outras vantagens que seu beneficiamento poderia trazer. O investimento se pagaria em pouquíssimo tempo… [3]

A questão que se levanta aqui – MANUTENÇÃO DO CAOS OU MUDANÇA NA FORMA DE GESTÃO – é muito profunda e impossível de se ecoar em poucas palavras, mas, ouso dizer que, em havendo gestão que respeite os recursos públicos, atuando em comunhão com a população para planejar e buscar desenvolvimento sustentável, potencializando todos os setores, além do incondicional rigor ao combate à corrupção aliados a administração técnica e capacitada, podemos colocar Piúma em condições de ser inserida no cenário capixaba como um dos melhores municípios para se viver e investir.

De certo cada prefeito teve em sua atuação pontos positivos e pontos negativos, méritos e deméritos. Contudo, os números apresentados dão conta de uma realidade dramática e que poderia ter sido evitada se houvessem planejado, se tivessem produzido projetos e, somando a isso tudo, tivessem tido maior comprometimento com a sociedade.

O momento exige análise crítica em quem votar e não mais se deixar seduzir por promessas que nunca se cumprem, por cenários que ao invés de esperança acabam se tornando em decepção. O momento nos exige não mais votar pelo ou para o amigo, pelo tapinha nos ombros, pelo emprego temporário, mas votar sabendo que o ato poderá proporcionar melhor futuro para sua própria família que nos dias de hoje vivencia o caos.

O momento exige de cada um de nós o melhor dos exercícios: o da reflexão imparcial, extraída da nossa consciência, sem paixões, voltada para uma análise que priorize o bem comum, possibilitando desenvolvimento sustentável e, por consequência, a melhoria de vida dentro de cada lar deste município.

A manutenção da forma de governar que vem perpetuando o marasmo em Piúma nesses 23 anos é receita perigosa e que, se mantida, irá vitimar ainda mais cidadãos, além daqueles que já foram vitimados/penalizados pelas drogas ilícitas, pela insegurança ou pela falta de equipamentos públicos capaz de atender as necessidades de nossa população e que já vitimou muitos inocentes pela inoperância.

por: Nelson Morghetti: Advogado, Bacharel em Filosofia, Pós graduado em Educação em Direitos Humanos e Juiz da 8ª Turma do Tribunal de Ética e Disciplina da Ordem dos Advogados do Brasil/ES.


referências: [1] https://www.cnnbrasil.com.br/business/2020/06/30/pela-primeira-vez-mais-da-metade-dos-brasileiros-nao-tem-trabalho-diz-ibge

[2] https://www.piuma.es.gov.br/portal/pagina/ler/28/financas-capixaba

[3] http://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2013/05/maquina-transforma-lixo-em-materiais-de-construcao-no-parana.html

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