Woody Allen: vítima ou vilão? Tire suas conclusões

Por Elie Cheniaux, professor associado da UERJ e da pós-graduação em psiquiatria e saúde mental da UFRJ, autor de “Woody Allen, seus filmes são mesmo autobiográficos”?

Com a estreia nesta semana de “Um Dia de Chuva em Nova York”, do cineasta Woody Allen, muitas críticas divulgadas parecem ambíguas: afinal, são sobre o profissional ou o pessoal? Aparentemente, o novo filme deixou de ser o tema central, graças ao imbróglio entre Allen e a Amazon. A película fazia parte de um acordo entre ambos, mas a parceria foi rompida com a ascensão dos movimentos #MeToo e Time’s Up, motivados pela polêmica de 1992, quando Woody Allen fora acusado de abusar sexualmente de sua filha adotiva, Dylan Farrow. É nítido que os holofotes estão mais voltados a todo esse enredo do que ao filme. Previsível? Sim. Procedente? Há controvérsias.  O fato é que, possivelmente, Dylan Farrow foi vítima não de abuso sexual, mas da síndrome de falsas memórias. Vamos relembrar: em 6 de agosto de 1992, Mia Farrow, ex-esposa de Woody Allen, o acusou de ter molestado sexualmente a filha adotiva de ambos, Dylan, que tinha sete anos de idade. A denúncia levou a uma investigação criminal por parte da polícia de Connecticut, nos Estados Unidos, e de uma equipe do Hospital Yale New Haven, especializada em abusos sexuais de crianças. Para a surpresa de quem desconhece até hoje a informação, em abril de 1993, esta equipe apresentou um relatório com a conclusão de que a menina não havia sido molestada. De acordo com os investigadores, o depoimento de Dylan apresentava muitas inconsistências e contradições, e parecia ter sido ensaiado. Na época, o chefe da equipe, Dr. John M. Leventhal, fez o seguinte pronunciamento: “Tínhamos duas hipóteses: uma, que eram declarações feitas por uma criança emocionalmente perturbada e depois fixadas em sua mente. E a outra hipótese era a de ter sido influenciada por sua mãe. Não chegamos a uma conclusão firme. Achamos que provavelmente foi uma combinação”. Portanto, Allen foi considerado inocente. A possível armação poderia se justificar com a separação de Woody Allen e Mia Farrow e o envolvimento dele com Soon-Yi, caso que se tornou um escândalo no mundo todo. Em 2014, Moses, outro filho adotivo de Mia Farrow e Woody Allen, de 36 anos, saiu em defesa do pai. Afirmou que ele não tinha molestado sua irmã e acusou a mãe de “envenenar” os filhos contra Allen e fazer “lavagem cerebral” nas crianças. O fato de Dylan acreditar que foi abusada pelo pai não significa que o ato tenha mesmo ocorrido. Ao contrário do que indica o senso comum, as nossas lembranças não representam um registro fiel do passado, e mesmo pessoas normais do ponto de vista psiquiátrico podem apresentar falsas memórias. Algumas vezes, falsas memórias chegam a ser mais ricas em detalhes e mais vívidas do que memórias verdadeiras. Elas surgem espontaneamente ou são o resultado de influência externa. Alguns estudos científicos, como os conduzidos pela psicóloga cognitiva americana, Elizabeth Loftus, demonstram que falsas memórias podem ser criadas por sugestão. Crianças pequenas são especialmente suscetíveis ao desenvolvimento de falsas memórias, pois são mais sugestionáveis do que crianças mais velhas, adolescentes ou adultos. Elas tendem a aceitar como verdade o que dizem os adultos e têm dificuldade de distinguir o que realmente vivenciaram do que apenas ouviram falar. Diversas formas de manipulação – exercidas por pais, psicoterapeutas ou outros – podem fazer com que sejam implantadas falsas memórias até mesmo de eventos traumáticos, como a de ter sofrido abuso sexual, por exemplo. No início da década de 1990, nos Estados Unidos, muitas pessoas adultas processaram seus pais acusando-os de tê-las molestado sexualmente na infância. Em grande parte desses casos, contudo, comprovou-se que nenhum abuso havia ocorrido e que, portanto, as acusações tiveram como origem falsas memórias, as quais não raramente haviam surgido no curso de um tratamento psicoterápico. Alguns autores chamam esse fenômeno de “síndrome de falsas memórias” que, com frequência, está associada a situações de divórcio dos pais e disputa de custódia. Muito provavelmente, Dylan é vítima dessa síndrome. Polêmicas à parte, o que podemos esperar de “Um Dia de Chuva em Nova York” é o que o cineasta faz de melhor: com Woody Allen, aprendemos a rir de nós mesmos; de falhas, medos e inseguranças. Independentemente de sua opinião sobre Allen, é inegável sua mescla de humor com lirismo, e como ele mostra que nós, seres humanos, somos tão frágeis e desamparados, mas, ao mesmo tempo, nos faz acreditar que a vida pode ser bela e romântica, cheia de música, magia e fantasia. Como um filme de Hollywood. *Dr. Elie Cheniaux é psiquiatra, escritor, membro licenciado da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, professor de pós-graduação em Psiquiatria e Saúde Mental da UFRJ, onde coordena o laboratório de pesquisa sobre o transtorno bipolar; e professor de pós-graduação em Ciências Médicas da UERJ. É autor do livro “Woody Allen: seus filmes são mesmo autobiográficos”? Rio de Janeiro: Autografia, 2019, v.1. p.304. [Prefácios de Marcelo Janot (O Globo) e de Ana Rodrigues (JB).

“Tão apaixonado por Woody Allen quanto por seu suposto alter ego das telas, Elie Cheniaux se debruça de forma minuciosa sobre a vida e obra do ator, diretor e roteirista para investigar até que ponto vão as semelhanças e diferenças. A decupagem criteriosa de seus 50 longas-metragens resultou em um trabalho revelador por parte do autor”. (Do prefácio de Marcelo Janot).

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