Um na barriga e outro segurando a saia

Altair Amaral de Matos, mãe de 10 filhos, aos 89 anos celebra a vida, apesar de toda luta

A vida não foi fácil para Dona Altair, mineira da cidade de Muriaé, casou-se e foi mãe muito nova. “Eu passei muito aperto, pois era muito nova, não tinha conhecimento e meu marido não permitia que eu conversasse com ninguém. Minha sorte foi que no começo minha sogra morava perto e me ajudava muito, ela era maravilhosa!”

O marido de Dona Altair trabalhava com o pai em outras cidades, estava sempre viajando, vinha em casa de 15 em 15 dias apenas para abastecer a dispensa. “Eu não era esperta como as moças de hoje em dia, então não sabia me prevenir e era um afilho atrás do outro. A Impressão que eu tinha era que meus filhos não cresciam, era sempre um na barriga e outro segurando minha saia”, relembrou.

Apesar de ciumento, seu Marcelino, esposo de dona Altair se mostrava muito apaixonado. “Meu marido era muito carinhoso comigo, só me chamava de “minha flor”, mas não permitia que eu conversasse nem com vizinhos, minha vida era dentro de casa cuidando dos meus filhos, dando comida na hora certa, colocando para a escola…”

E todo ano era um novo parto e o marido que ajudava em cada detalhe, cortava o cordão umbilical, “um mês antes a gente já começava lavar os paninhos, passar. Ele pagava uma mulher para me ajudar nos primeiros três dias, mas depois eu já caía na luta”. E assim foram dez filhos, todos com parto normal, em casa. No parto da décima primeira, ela foi para o hospital com hemorragia e ficou em coma 18 dias e a filha faleceu.

Dona Altair conta que as coisas começaram a piorar quando a família se mudou para Bom Jesus do Itabapoana, onde seu marido começou a trabalhar na marmoraria do irmão. “Foi aí que ele começou a ficar doente, pois o trabalho era muito pesado, trabalhava com água até o joelho e aquele pó de mármore no nariz, sem férias…”

Com o marido doente, o estresse tomou conta da casa, que nesse tempo já estava cheio de adolescentes, e na hora da desobediência o levava a agredi-los. Sem recursos médicos, seu Marcelino chegou a ser internado em clínica psiquiátrica e no retorno para casa veio a falecer com apenas 48 anos. “Quando eu ia começar a curtir meu marido, ele adoeceu.”

Agora viúva, as coisas só pioraram pra Dona Altair, pois estava totalmente sozinha, recebendo uma pensão muito baixa. Mas ela conta que nunca deixou faltar nada, inclusive chegou a vender tudo que tinha na casa para alimentar os filhos. “Nunca faltou nada na minha casa. A sorte foi que ele construiu uma casinha pra mim, que é essa que moro até hoje”. A solução foi colocar todos os filhos para trabalhar, mesmo muito novos. E assim eles cresceram, trabalhando fora e ajudando a mãe em casa.

Com o passar do tempo, cada filho tomou seu rumo, uns optaram por estudar um pouco mais, as quatro filhas casaram muito novas e a maioria foi morar longe.

À certa altura, Dona Altair já estava completamente sozinha, pois nunca quis casar-se novamente, “eu não gostava nem que tocassem nesse assunto, pois eu tinha muito filho e não queria arrumar problema”.

Apesar da solidão, a vida seguia estabilizada, quando o segundo filho mais velho adoeceu e faleceu. Quatro anos depois o mais velho também adoeceu e faleceu, em 1997. “Até então eu estava muito bem, depois que meus filhos faleceram é que eu comecei a ficar meio caidinha, sentir dores…”

Mas esta guerreira nunca deixou a peteca cair, sempre linda, vaidosa, animada, fez parte do clube da Terceira Idade por 15 anos, cultivando amizades e seguindo feliz.

“Eu me sinto uma vitoriosa, pois apesar de tudo eu dei conta! Eu não mandei meus filhos para casa dos outros, eu mesma criei todos.”

Hoje Dona Altair segue morando na mesma casa em Bom Jesus do Itabapoana-RJ, cercada dos filhos, 24 netos e 18 bisnetos, muito amada e querida por todos.

 

 

Foto: Dona Altair e os filhos e netos / arquivo

Legenda/ Dona Altair é mais uma mãe exemplo de vida para todos. Ela é avó da jornalista Ivny Matos.

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