Mês de reflexão – as feridas abertas da abolição da escravatura

Isa Colli – Jornalista e escritora; nascida em Presidente Kennedy, é a nova correspondente do Jornal na Bélgica

Maio é um mês que nos convida à reflexão sobre o movimento negro, o racismo e as políticas afirmativas para o povo preto. Há 132 anos, comemoramos a abolição da escravatura, mas as marcas de um processo tão doloroso continuam como feridas abertas. Ainda há muito que se fazer para reparar o sofrimento dos nossos antepassados, que foram trazidos do continente africano e escravizados no Brasil.

O fim da escravidão ocorreu com a assinatura da Lei Áurea e, naquele momento, as atenções se voltaram para a princesa Isabel. Há, no entanto injustiças nessa versão histórica. A militante da causa negra Magda Gomes destaca, com muita propriedade, que o movimento que deu forma a um Brasil da época, e que estava diretamente ligado a uma transição do fim do Império para República, teve limitações e equívocos. Há um distanciamento entre a expectativa, a especulação e a realidade que o processo abolicionista trouxe para o Brasil. É essencial acrescentar que o processo foi resultado de muita luta popular, marcado pela resistência das pessoas que foram escravizadas.

A pesquisadora ressalta que é preciso valorizar as pessoas essenciais para esse processo, que caem em um apagamento histórico com a necessidade de perpetuar uma narrativa em que traz a princesa Isabel como a figura central, deixando de lado personagens negros de grande valor, que até hoje não ocupam as páginas dos livros de história, como Adelina, André Rebouças, Maria Firmina dos Reis, dentre tantos outros pretos, que foram essenciais para a luta abolicionista.

Magda traz luz ao movimento abolicionista em que sobressaíram Luiz Gama e José do Patrocínio, intelectuais negros, e outras iniciativas e associações como o Clube do Cupim, em Recife, as Frentes Negras, de São Paulo e da Bahia. Pessoas e grupos que não desistiram de fazer deste país e de seus irmãos, indivíduos livres. O que se tinha era a busca de uma liberdade que ainda não está entre nós, quando nos deparamos com um país adoecido, que mal entende suas questões étnicas e culturais; e que tem dificuldade de promover a igualdade de fato e de direito.

Após 132 anos, o povo negro brasileiro, que corresponde a maioria da população, ainda se encontra preso às diferenças salariais no mercado de trabalho, à falta de oportunidades e ao preconceito. E ainda: negros são minoria no ensino superior, nos espaços públicos de poder e em cargos de liderança.

No mês de maio, temos que chamar atenção para o fato de que a abolição legal da escravidão não garantiu condições reais de participação na sociedade para a população negra no Brasil. Mais do que celebrar, precisamos dar voz às lutas do povo preto.

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