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Deu Crônica

O MUNDO ANDA TÃO COMPLICADO… (OU LEGIÃO URBANA EM CINCO ATOS)

Ato 1 ou “Nas favelas, no Senado, sujeira pra todo lado”: Como poderei dizer hoje sobre as músicas da Legião Urbana? Contemporâneas? Atemporais? Intertextuais? Só sei que, cada vez que olho para o lado, lembro-me de que há um clássico dessa banda que se encaixa perfeitamente nesses tempos de doenças, corrupção, discriminação, preconceito e vários outros assuntos que tanto nos assustam. Porém, o que dizer da sujeira que atravessa a nossa cidade (e o país)? De um lado, as ruas em estado de calamidade pública, com urubus tentando fazer o serviço do ser humano: seja da empresa contratada para a coleta de lixo ou mesmo de vizinhos que insistem que a rua é um pedaço de sua casa e jogam de tudo (tudo mesmo) nas ruas e calçadas. Por outro lado, há sempre um escândalo quanto à nossa velha política que, pode mudar partido, surgir carinha nova, ou voltar a velha-guarda, que dá tudo no mesmo: “farinha pouca, meu pirão primeiro.”

Ato 2 ou “Clarisse está trancada no banheiro e faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete”: Na minha época de adolescente, minha mãe sempre dizia “escreveu, não leu, o pau comeu”. Hoje, são os jovens que falam isso para os pais. Experimenta não dar de presente de Natal o novo iPhone! Aquela roupa de marca que talvez só usará uma vez? Não dá não pra ver! As artimanhas são as mais diversas para fazerem dos pais as vítimas do momento. Também, quem mandou empurrar acessórios para os filhos pararem de chorar? Ah, esqueceram, papai e mamãe, de que vocês passam a mão na cabeça de seus filhos sem ao menos saber se o que dizem é a verdade? Agora, sofra aí com os meninos e meninas que vivem se cortando ou deprimidos sem nenhum motivo aparente ou com todos os motivos que o jovem jamais deveria ter a não ser se preocupar em curtir a vida, longe do escuro do quarto e da solidão que assola o século XXI.

Ato 3 ou “Você diz que seus pais não lhe entende, mas você não entende seus pais”: Como é percebido, essa é uma geração impaciente e intolerante para com os mais velhos. Nunca tinha dado errado o que nossos antecedentes tinham nos ensinado para a vida. Só agora resolveram questionar e abolir o muito obrigado, desculpa, perdão, e ainda na maior cara de pau, ignoram um bom dia e saem pelas ruas e avenidas sempre apressados e atrasados para mais um compromisso que não é o trabalho, já que vivem à custa dos pais e, no fim das contas, estes acabam sendo assassinados de uma forma cruel e cheia de requintes quanto às torturas utilizadas e acabam chocando a sociedade. Porém, muitas coisas se perderam: as reuniões familiares que estreitavam os laços de carinho e amor, filhos cada vez mais sendo criados pelas tecnologias, pais que se separam e deixam os filhos ao deus-dará, sem exemplos a seguir e assim surgem os jovens sem respeito nenhum aos ensinamentos deixados pelos anciãos.

Ato 4 ou “Quando nascemos fomos programados a receber o que vocês nos empurraram”: Já é antigo dizer que o capitalismo nos influencia a querer sempre mais, porém sabemos que essa é uma realidade ainda presente em nossas vidas. Vivemos sempre num desejo frenético de querer além do limite, custe o que custar, e saímos por aí tal qual a poesia de Drummond “Eu, etiqueta”, ou seja, fazemos uma propaganda danada daquilo que não somos. Ainda não acabou. Virou modinha agora passar pra frente o ato reverso. Como assim? Fake news! Coisa feia fazer da vida do outro um inferno com a divulgação de uma mentira, colocar palavras na boca do outro, e o pior são as pessoas que não procuram informação, querem tudo mastigadinho, prontinho para passar pra frente, e feito vírus que se espalha numa rapidez descontrolada, levam de galho em galho a mentira que prejudicará alguém pelo simples prazer de ver o outro sofrer ou que é necessário alguém que me interessa estar no poder.

Ato 5 ou “O mundo anda tão complicado”: Gostaria muito de entender uma coisa: por que como a pessoa morreu é mais importante do que quem morreu? Fulano partiu dessa para uma melhor… “Ah, tá!”, mas fulano foi torturado, enforcado, amordaçado, estuprado, esquartejado… milhões de visualizações! O que está acontecendo com o mundo? Ser mentiroso é legal, mas ser verdadeiro é cafona e ultrapassado. Ser errado é propício para alcançar um fã-clube, contudo ser correto é motivo de zombarias. Ter vários relacionamentos, às vezes ao mesmo tempo, e dizer “eu te amo” para todos, tá tranquilo, porém, viver ao lado de uma única pessoa é coisa do tempo das cavernas. Estamos presenciando o que Camões já previra no desconcerto do mundo. Quanto mar de descontentamentos! Não sei não, mas ainda torço para alguém chegar e dizer “hoje eu quero fazer tudo por você!” Quem me dera!

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