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ARTIGO: A borboleta e o negacionista

Cesar Augusto de Carvalho*

Para os aficionados da literatura fantástica é fácil perceber o quanto nossa realidade está repleta de personagens saídos diretamente dela. Jamais imaginaria isso possível! O negacionista é um desses absurdos. Outro dia cruzei com um, no corredor da padaria, saindo sem máscaras, reclamando da gerência que não o deixou entrar e me espremeu contra o corrimão.

Protestei contra a falta de máscara e a coisa virou bate-boca. Ele alegou o direito de fazer o que bem entendesse. Esperei-o terminar de falar, mas não quis me ouvir. Calou-me cantando trecho da música de Raul Seixas, “faz o que tu queres pois é tudo da lei” e saiu gritando que a pandemia é coisa da mídia. Fiquei impressionado! Como uma crença, um conjunto de símbolos que só existe na cabeça da pessoa, pode influenciá-la a tal ponto de colocar, não só sua vida, mas também a vida de inúmeras outras pessoas em perigo?

A ação social de cada um de nós é como o bater das asas da borboleta, não vemos o que ela produz, exceto o fato que produz. No caso da borboleta, ela voa, no caso do negacionista, ele mata! Cabe a este, feito carapuça, a metáfora do Efeito Borboleta, cujo bater de asas no Brasil provoca tornados no Texas. O do negacionista expande as tragédias. Deixando as metáforas de lado – afinal elas esclarecem apenas o resultado, não as causas – pensemos o que pode estar por trás das ações do negacionista.

Ao recusar-se a usar a máscara, alegando o direito de fazer o que bem entende, ele comete alguns equívocos que podem colocá-lo na condição de criminoso por desrespeitar a Constituição. O primeiro é não respeitar a vida alheia. No caso de nosso negacionista, a consequência imediata do seu “direito” de usar ou não a máscara é aumentar a circulação do vírus e intensificar suas consequências já drásticas.

Atitude tão criminosa quanto a de ocupantes de cargo público que adotam a mesma posição. Não é demais lembrar que a Constituição garante o direito à vida e coloca o Estado como corresponsável pela sua manutenção. A história registra inúmeros casos de políticos que adotaram o negacionismo como princípio administrativo da saúde pública. Caso notório é o do presidente sul-africano, Tabo Mbeki que, entre 1999 e 2008, negando a gravidade do surto da AIDS, produziu um país com a maior taxa de infectados do mundo, 20%.

Do ponto de vista político, nosso negacionista se revela um ignorante dos princípios básicos da democracia, a liberdade individual que termina onde começa a do outro. Então, você pode sim, fazer tudo o que quiser, pois, está dentro da lei. Fora dela, é crime. E contaminar o outro, ou colocá-lo em perigo, seja qual for, é violar o princípio básico da cidadania. Como se vê, o negacionista é uma borboleta. Seu bater de asas amplia a circulação do vírus e macula o relacionamento democrático. Precisamos amputar-lhe as asas.

*Cesar Augusto de Carvalho é escritor, doutor em História e professor de Sociologia aposentado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Seu último lançamento é o livro de contos Histórias de Quem.

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