“A gente não quer só comida”

O texto é um relato da assistente social Isabella Galito Gonçalves

Quinta feira, 21 de maio de 2020. Recebi uma mensagem numa rede social. Era de uma mãe de dez filhos e avó de uma netinha de poucos meses, o filho mais velho com 17 anos, sua irmã com 14 anos já mãe (eu conheço a família há alguns anos, já os ajudei em outras ocasiões). Esta mãe me pedia ajuda para obter informações sobre qual dia a cesta básica seria entregue à casa dela.

Prontifiquei-me, contatei o setor responsável e tive a resposta: Segunda feira, 25 de maio. Dei-lhe a resposta à pergunta feita. Quase naturalmente perguntei a senhora (que não deve ter mais de quarenta anos) – Você está trabalhando? A resposta: fui demitida da empresa há uns dez meses (ela era gari), e nesses últimos meses não consigo fazer mais nenhum bico.

Segunda pergunta: conseguiu se cadastrar para receber o auxílio emergencial? Resposta: Sim, mas com treze pessoas em uma casa, “só Deus”. Uma terceira pergunta: e vocês têm o que comer nesse final de semana? “Temos arroz, pó de café e açúcar”.

ARROZ, PÓ DE CAFÉ E AÇUCAR! Isso foi quase um grito dentro da minha cabeça. Na mesma hora liguei para algumas pessoas da minha família, que se prontificaram em me ajudar a montar uma cesta básica para doar à família. Isso foi muito bom para nós, tivemos a chance de exercitar nossa caridade. Não nos atemos apenas em itens básicos, como arroz, feijão, macarrão… doamos leite, biscoito, doces, verduras, carne, fralda e roupinhas para o bebê. Produtos de higiene… Foram três caixas cheias de produtos. Vão durar mais que um final de semana, talvez eles tenham coisas para comer por uns quinze dias, já que a cesta básica da prefeitura chega na segunda e vai somar.

Ah, no dia 28 de maio ela vai receber R$1.200, 00 do auxílio emergencial do governo federal. Treze pessoas. Caridade. Política pública de segurança alimentar. Auxílio Emergencial. Acho que eles vão comer uns 20 dias. Não sei se vão pagar água e luz.

Na área da assistência social, essa família é classificada como família em extrema vulnerabilidade social, abaixo da linha da pobreza, miserável. Uma vez que a renda per capita deles é R$ 0,00. Isso mesmo, ZERO REAIS. Não se considera programas de transferência de renda para fins de cálculo de renda, mas se considerássemos aqui teríamos uma per capita de R$92,30, como se vive com esse valor? Contar essa história é um convite para que nós possamos refletir sobre as diversas situações que estão acontecendo ao nosso lado e nós todos os dias nos recusamos a enxergar. Essa família em questão, consegue acessar todos os programas de assistência social que o município oferece. Entretanto, essas políticas públicas de assistência não têm sido suficientes para garantir a autonomia necessária a essa e inúmeras outras famílias. Vejamos, numa mesma família: baixa escolaridade, gravidez precoce, desemprego, suposto envolvimento de alguns com drogas… e sabe-se lá mais quantos outros problemas. E de quem é a culpa? De quem é a responsabilidade? Como essa realidade pode ser mudada? Eu tenho certeza que não é com a cesta de alimentos recheada de produtos, que não vão durar mais que quinze dias…

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